Informativo da UEM

ISSN: 2238-5002 - Informativo 1097

ANO XXIII - Nº 1097 - 23 de julho de 2014

Estou em: Home Informativos (2009) Informativo 877 Última Diligência do Mestre Di Loreto
Última Diligência do Mestre Di Loreto Imprimir E-mail

OPINIÃO 


 
*Oswaldo Dante Milton Di Loreto

No último dia 30, aos exatos 80 anos, faleceu o Dr. Oswaldo Dante Milton Di Loreto. Médico psiquiatra pela Universidade de São Paulo, um dos pioneiros da psicoterapia infantil no Brasil. Mais de 50 anos de sua vida profissional foram dedicados ao estudo da mente de crianças. Recebeu o título de Notório Saber do Instituto de Psicologia da USP. Escritor tardio, iniciou seus escritos aos 68 anos. Publicou três livros preciosos, o primeiro intitulado Psicopatogênese abordando a origem e o modo de construção das moléstias da mente contidas nas relações familiares. O seguinte é Posições Tardias uma contribuição ao estudo do segundo ano de vida. Em seu terceiro livro nos presenteia com algumas memórias ao sabor de Casos & Causos acontecidos no Tempo das Diligências. Publicou, também, vários artigos no periódico científico Psicologia em Estudo da Universidade Estadual de Maringá.

Foi fundador da Comunidade Terapêutica Enfance em Diadema, SP, que funcionou de 1968 a 1987. É importante lembrar que o pensamento vigente e hegemônico, nesta época, era de segregação do doente mental, e os hospitais psiquiátricos eram verdadeiros calabouços, recolhiam milhares de pessoas que viviam em condições desumanas. O Dr. Di Loreto idealizou um espaço alternativo a essa política, oferecendo ajuda efetiva para aliviar o sofrimento mental e melhorar a qualidade de vida das crianças pacientes. Em suas palavras ?é preciso praticar uma psicologia do real e construir uma realidade hospitalar microssocial em que se procura dar sentido à vida (...) nos esforçamos o tempo todo para criar uma boa sociedade. Com êxitos maiores ou menores, mas sempre lutando para isso. Isso é o que torna uma sociedade terapêutica. Para todos, pacientes e trabalhadores?. A Enfance se tornou importante espaço de pesquisa e de formação de profissionais, inclusive com programa de residência em psiquiatria para médicos.

"É preciso praticar uma psicologia do real e construir uma realidade hospitalar microssocial em que se procura dar sentido à vida"

 Por mais de 30 anos Di Loreto trabalhou com grupos de estudo denominados GEPPPI (Grupo de Estudos de Psiquiatria, Psicologia e Psicoterapia da Infância) nos quais orientava profissionais a ?organizar a cabeça? para trabalhar como bons clínicos. Foram centenas de alunos em grupos espalhados ?pelos brasis?, de norte a sul. Muitas horas de vôo, disposição, paciência e lealdade à sua paixão pela compreensão da mente humana. Solidário às angústias de jovens profissionais, se ocupava ouvindo casos trazidos pelos alunos, era esse o material de trabalho para horas de conversa. A necessidade e a proposta era construir a ferramenta do pensar clínico, recuperar o sentido de técnicas aprendidas mecanicamente, vitalizar teorias, desmistificar procedimentos. Ao final de horas, a vivência encarnada de que o conhecimento sobre o paciente é construído com muito trabalho, estudo e tolerância. Como dizia: ?com recursos da própria cabeça, boa cabeça, dando mão de obra?. Primava pelo rigor ao método para saber sobre a patologia e patogenia mental do paciente, criança ou adulto, pois ?o que varia é o tamanho do envoltório?, afirmava.

Di Loreto era pouco afeto ao acúmulo de bens, poder, prestígio vazio, ?nível zero de frescura?, como gostava de brincar. Trabalhava de forma rigorosamente ética, defensor incondicional das boas condições de trabalho, ?pechinchar, só em favor dos pacientes?. Suas frases têm alto poder pedagógico. Nos grupos de supervisionandos partilhava sua vida e todo tipo de descobertas, inclusive de suas vivências psicológicas, limites, estados de crises. Instigava a pesquisa, a curiosidade e a observação do paciente e de si mesmo, o senso de responsabilidade social. Com generosidade esmiuçava raciocínios, expunha didaticamente a trajetória de seu pensamento, mostrando o percurso da construção do conhecimento sobre o paciente de modo singular e eficiente. Inspirava franqueza nos supervisionandos ao identificar potenciais e lacunas profissionais. Estimulava a criação de novos grupos de estudo. Tinha consciência de sua real importância como formador, mas também da finitude da vida corporal.Mestre, um verdadeiro mestre. Discreto e afetuoso amigo. Temos muito a agradecer. Com tantos desafios que a vida nos coloca, um homem dessa grandeza fará falta.

 

Por Edilene de Lima
Psicóloga ? representando gepppianos de Maringá

Publicações de Di Loreto
?Origem e modo de construção das moléstias da mente (psicopatogênese): a psicopa?togênese que pode estar contida nas relações familiares. Oswaldo Dante Milton di Loreto. Editora Casa do Psicólogo, 2004.
?Posições Tardias: contribuições ao estudo do segundo ano de vida. Oswaldo Dante Milton di Loreto. Editora Casa do Psicólogo, 2007.
?Casos & Causos acontecidos no tempo das diligências. Oswaldo Dante Milton di Loreto. Editora All Books, 2009

 

 

Teses & Dissertações

On-line

Nós temos 87 visitantes online

Estou em: Home Informativos (2009) Informativo 877 Última Diligência do Mestre Di Loreto