Informativo da UEM

ISSN: 2238-5002 - Informativo 1115

ANO XXIII - Nº 1115 - 26 de novembro de 2014

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O Dia da Consciência Negra e o racismo ?à brasileira? Imprimir E-mail

O P I N I Ã O




Walter Praxedes*

A estratégia de celebrarmos o dia 20 de novembro como o feriado do Dia da Consciência Negra, que em centenas de cidades brasileiras já compõe o calendário oficial, foi formulada pelos movimentos sociais negros para refletirmos sobre as condições materiais e psicológicas em que vivem cerca de 50% dos brasileiros e 25% da população de Maringá, e sinalizarmos para o país e toda a região que estamos mobilizados contra a iniquidade da discriminação racial na nossa cidade.

Mas existem aqueles que não compreendem a importância desse dia de exame de consciência para todos os cidadãos e são até contrários ao feriado, alguns por simples indiferença, mas outros o são por razões empresariais e até políticas, como foi demonstrado em Maringá, no processo de aprovação pelos vereadores da Lei 10.952/2008, que instituía o feriado, o subseqüente veto à Lei emitido pelo Prefeito Municipal, Silvio Magalhães Barros II, em 11/03/2009, seguindo suas convicções e atendendo à intervenção realizada pelos dirigentes da Associação Comercial e Industrial de Maringá - ACIM, e a constrangedora falta de independência da maioria dos vereadores da cidade que no dia 24/03/2009 se submeteram à determinação dos poderes executivo e empresarial, ao votarem favoráveis ao veto à Lei que eles próprios haviam aprovado.

No Artigo 3º da Constituição brasileira aparece a declaração de que um objetivo fundamental da República é ?promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação?, e o Artigo 5º define a prática do racismo como ?crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei?. Mesmo assim o racismo contra os negros persiste nas relações sociais em nosso país, e a cidade de Maringá, infelizmente não é exceção.

Entre os estudiosos e ativistas dos movimentos políticos negros, já se convencionou chamar de ?racismo à brasileira? a forma preconceituosa e discriminatória de tratamento dispensada aos indivíduos classificados como negros em nosso país. Aqueles que são ?racistas à brasileira? concebem, no seu íntimo, talvez até inconscientemente, a existência de raças superiores e raças inferiores e a existência de uma hierarquia entre as raças, cada uma ocupando um lugar previamente estipulado na pirâmide social, com os brancos obviamente no topo. Evidentemente, sem conflitos ou animosidades; muito pelo contrário, os desiguais brancos, negros, índios e mestiços devem se tratar cordialmente, se possível com laços de afetividade e intimidade, tratamento este que permite inclusive a negação da existência do racismo.

"Esta é a peculiaridade do ?racismo à brasileira?, que tem vergonha de se assumir como racismo, mas não deixa de gerar a humilhação e a exploração dos negros"

Esta é a peculiaridade do ?racismo à brasileira?, que tem vergonha de se assumir como racismo, mas não deixa de gerar a humilhação e a exploração dos negros, como demonstram os critérios de diferenciação social próprios das sociedades modernas como renda, propriedade, escolarização, prestígio das ocupações, caráter manual ou intelectual do trabalho, forma e valor da remuneração, local de trabalho, participação nas instâncias estatais de poder e estilo de vida, com maior ou menor acesso aos bens e aos serviços de consumo. Alguém tem dúvida de que, ao longo de toda a história da sociedade brasileira e maringaense, vamos encontrar os indivíduos considerados negros como os mais suscetíveis de se alojarem nas piores posições?

Para que isso tenha ocorrido, foi difundido o preconceito de que os negros são bons para participarem de festivais, em atividades esportivas, música popular, dança, culinária, e que são fortes para os trabalhos braçais e o sexo, ao mesmo tempo em que são indisciplinados para aquelas atividades que exigem paciência, concentração, persistência, inteligência e racionalidade. Para o pensamento racista, estas últimas características são mais encontradas nos europeus e seus descendentes considerados brancos.

Contra todos esses estereótipos, na busca de condições de vida digna para todos os brasileiros, independentemente da cor da sua pele, a exemplo do que ocorreu em Maringá no dia em que a Lei que instituía o feriado foi rejeitada, uma sociedade civil participativa e questionadora formada por entidades anti-racistas, movimentos sociais de trabalhadores, movimentos pastorais, estudantes, professores, jornalistas e parlamentares independentes continuarão trabalhando para que os nossos dirigentes e representantes compreendam um dia que os direitos de cidadania, que incluem a memória e a celebração das lutas pela liberdade e a igualdade entre negros e não-negros na nossa cidade e país, não podem ser colocados em segundo plano em relação aos interesses comerciais e políticos de uma minoria.

*Chefe do Departamento de Ciências Sociais Coordenador do Programa Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros da UEM

 

 

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